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quinta-feira, 14 de setembro de 2023

História do Jaboatão dos Guararapes

 Por James Davidson


O município do Jaboatão dos Guararapes está localizado na Região Metropolitana do Recife, no estado de Pernambuco. Possuindo 258 km² de área territorial, o território do município está limitado a leste pelo Oceano Atlântico e pela Cidade do Recife, ao oeste pelo município do Moreno, ao norte por São Lourenço da Mata e pela Cidade do Recife e ao sul pelo município do Cabo de Santo Agostinho. Sua população, estimada em 2021 pelo IBGE, é de 711.330 habitantes, estando distribuída por 7 Regionais ou Distritos: Sede (Prazeres), Jaboatão Centro, Curados, Cavaleiro, Muribeca, Guararapes e Praias. (IBGE, 2023)



Assim como as demais regiões do Brasil, o território do Jaboatão dos Guararapes era habitado pelos povos indígenas. De acordo com a maioria dos cronistas do período colonial, a etnia dos indígenas Caetés ocupava toda a região situada imediatamente ao sul do Recife até as margens do Rio São Francisco (CARDIM, 2009). Ainda de acordo com a maioria dos autores, os indígenas Caetés pertenciam ao grupo Tupi, falavam a língua geral e adotavam um modo de vida muito semelhante aos demais povos tupis, vivendo do cultivo da mandioca e tendo costumes antropofágicos (SOUSA, 2010).



De acordo com Frei Vicente Salvador (1982), o território do Jaboatão foi palco de resistência entre indígenas e colonizadores. Nos atuais Montes Guararapes, os indígenas Caetés ergueram uma forte paliçada, repelindo a colonização portuguesa naquela direção, na época da primeira fase de conquista da Capitania de Pernambuco efetuada por Duarte Coelho de Albuquerque. Todavia, após o falecimento deste último, e com a chegada de seu irmão Jorge de Albuquerque, teve início uma guerra de extermínio contra os indígenas da região sul da capitania (1560-1565), incluindo contra os Caetés, que resultou na escravização e fuga dos membros dessa etnia e na conquista de suas terras pelos colonizadores portugueses.



Após a conquista das terras pelos portugueses, teve início o processo de assimilação das terras através da doação de cartas de sesmarias. Assim, a partir de 1566, foram distribuídas várias sesmarias de terras entre os colonos europeus, nas margens do Rio Jaboatão e de seus afluentes. A exploração da cultura da cana-de-açúcar foi a principal atividade econômica nesse período, com a instalação de vários engenhos de açúcar nas terras da “Ribeira do Jaboatão”. Desta maneira, até o final do século XVI, já estavam levantadas dezenas de fábricas de açúcar, explorando o trabalho escravo de indígenas e de africanos. (MELLO, 2012)



Ainda no final do século XVI, surgem na região duas povoações que seriam os embriões da atual cidade do Jaboatão: Muribeca, levantada em terras dos engenhos Novo e Santo André; e Jaboatão, levantada na confluência dos rios Jaboatão e Duas Unas, nas terras do engenho São João Batista. (COSTA, 1983) Já na última década do século XVI são registradas a existência das igrejas matrizes dessas povoações, Nossa Senhora do Rosário, em Muribeca; Santo Amaro em Jaboatão, com suas respectivas festas votivas. Também se registram nesse período a presença de capelas votivas situadas na zona litorânea do município (N.S das Candeias e Santo Antônio da Barra) bem como festividades religiosas nas capelas dos engenhos. (VELOSO, 1984)



No século XVII, a história de Jaboatão seria marcada pela presença da ocupação holandesa (1630-1654). A denominada “Invasão Holandesa” em Pernambuco provocou muitos estragos nos engenhos da região, prejudicando a produção açucareira e favorecendo a fuga dos escravizados (MELLO, 1981). Durante as duas Batalhas do Guararapes (1648 e 1649) os holandeses foram vencidos nos Montes Guararapes, em Jaboatão, ficando estes fatos registrados em vários relatos e documentos da época. A fim de celebrar e memorizar esta vitória, foi levantada no local uma igreja votiva dedicada à Nossa Senhora dos Prazeres, no ano de 1656. Em seu entorno são realizados, a partir de sua fundação, uma das celebrações religiosas mais tradicionais do estado de Pernambuco – a festa de Nossa Senhora dos Prazeres, também chamada de Festa da Pitomba. (MELLO, 1971)



Durante o final do século XVII e no XVIII, acontecem algumas mudanças importantes na região. A economia açucareira, apesar das várias crises que enfrentou, passa a ter uma maior expansão na Freguesia de Jaboatão, através da doação de novas cartas de sesmarias ao oeste. Novos engenhos e fábricas de açúcar são levantados nesse período. Também nesta época são levantadas novas igrejas: N.s da Piedade, na Praia de mesmo nome, erguida em 1683; N.s do Loreto, também na Praia de Piedade, construída em 1660; N.s do Rosário dos Pretos da Muribeca, erguida em meados do século XVIII; N.s do Livramento de Jaboatão, construída em 1774; N.s do Rosário dos Pretos de Jaboatão, também construída em meados do século XVIII. (VELOSO, 1982)



Ainda no final do século XVII, ocorreu a construção da nova igreja de Santo Amaro. Segundo o historiador Pereira da Costa (1983), o fato ocorreu porque a primitiva matriz se encontrava em ruínas e num lugar distante do principal centro da povoação. Assim, em 1691, numa cima de uma colina próxima à povoação, é construída a nova Igreja Matriz, devotada ao tradicional padroeiro da localidade:

 

“Um século depois, achando-se a igreja bastante arruinada, e então mal situada, naturalmente por se estender a povoação em direção oposta, e ficar assim distante do centro da população, resolveu o vigário da freguesia Padre Adriano de Almeida empreender, pelos anos de 1691, a construção de um novo templo, em situações convenientes, o que feito, o referido vigário, a Irmandade de S.S Sacramento e várias pessoas da localidade dirigiram um requerimento ao soberano pedindo-lhe alguns ornamentos para a celebração do culto na igreja nova que fizeram, o qual veio para o governador Caetano de Melo de Castro informar com o seu parecer, por carta régia de 12 de janeiro de 1697. Além destes dados constantes do aludido requerimento, vê-se mais que se fizera a obra do templo, de pedra e cal, com arcos, portas, cornijas de cantaria, e com duas capelas, tudo com a perfeição possível para com mais decência se celebrarem os divinos ofícios, e em que se gastaram oito mil cruzados.”

(COSTA, 1983)

 

Politicamente, tanto as freguesias da Muribeca como de Jaboatão estavam submetidas à Vila de Olinda, ambas até o ano de 1711. Com a elevação do Recife à condição de Vila, no ano de 1711, passa a freguesia da Muribeca a integrar o termo desta última. Em 1833, com a resolução provincial de 20 de maio de 1833, Jaboatão passa também a integrar o termo do Recife, juntamente com São Lourenço e Várzea. (HONOTATO, 1976).



Em meados do século XIX, a economia de Jaboatão estava baseada principalmente no cultivo da cana-de-açúcar. Segundo um levantamento estatístico realizado em 1857, em Jaboatão havia naquele ano 45 engenhos, produzindo 56.195 pães de açúcar e 9.507 cargas de aguardente. Para o trabalho na cana-de-açúcar, havia um total de 3.520 escravizados, segundo a referida estatística. (MELLO, 1975)



Além da cana-de-açúcar, na economia de Jaboatão também se destacavam os seguintes produtos: criação de gado nas Curcuranas, cultivo de melancias nas Curcuranas, cultivo de coqueiros e cajueiros na região das praias e de Prazeres, produção de café e de mandioca na Muribeca, cultivos de subsistência em sítios e nos engenhos. (MELLO, op. Cit)

No ano de 1973, por força da provincial n° 1093 de 24 de maio de 1973, o município do Jaboatão é desmembrado do município do Recife. O novo município criado possuía uma extensão maior que a atual, com mais de 500 km² de área territorial. Estavam incluídos no novo município os territórios das antigas freguesias do Jaboatão e da Muribeca, se limitando com o Recife ao leste, com São Lourenço ao norte, com o Cabo de Santo Agostinho ao sul e com Vitória de Santo Antão ao oeste. Abrangia os povoados de Tejipió, Pontezinha, Prazeres, Loreto e Muribeca, bem como todo o território que no futuro se transformaria no município do Moreno. (GALVÃO, 1910)



No final do século XIX, o Brasil passaria por várias transformações sociais, econômicas, culturais e políticas que trariam também mudanças no município do Jaboatão. Entre essas mudanças, merecem ser destacado o declínio doas antigos engenhos banguês, que passaram a ser substituídos pelas usinas e engenhos centrais, com capacidade industrial de moagem e produção. (ANDRADE, 1989) As Usinas de açúcar passam a dominar a paisagem rural com seus extensos canaviais e suas chaminés imponentes, passando os antigos engenhos a condição de meros fornecedores de cana. Outra mudança foi a abolição do trabalho escravo, em 1888. Como Jaboatão era um tradicional município açucareiro, muitos escravizados abandonaram o campo, emigrando em busca de melhores oportunidades nas cidades, enquanto outros permaneceram nos engenhos se tornando mão-de-obra barata para as usinas.



Ainda no final do século XIX, o município do Jaboatão seria impactado pela chegada das ferrovias patrocinadas pelo estado e pela iniciativa privada. A primeira dessas ferrovias a cortar o município foi a Estrada de Ferro Recife-São Francisco. Inaugurada em 1858, atravessava Jaboatão na altura da Povoação de Prazeres. A segunda ferrovia a ser construída foi a Estrada de Ferro Central de Pernambuco, ligando o Recife ao interior do estado. Esta ferrovia atravessou a sede da povoação do Jaboatão, melhorando as comunicações entre a localidade e a capital, sendo inaugurada em 25 de março de 1885. As usinas de açúcar também instalaram suas próprias ferrovias, como as Usinas Bulhões, Muribeca e Jaboatão, que conectavam seus engenhos e propriedades com suas sedes através de trilhos pelos canaviais. (PINTO, 1949)



A sede da Cidade do Jaboatão seria bastante influenciada pela presença dos trilhos. Além da ferrovia e da Estação ferroviária, a localidade passou a sediar também as Oficinas Ferroviárias da região. Com a concessão do sistema ferroviário do Nordeste para os ingleses da Great Western, a importância de Jaboatão passou a ser ainda maior, pois ocorreu a centralização nesta cidade de todos os serviços de consertos, reparos e até mesmo a fabricação de trens. As Oficinas de Jaboatão foram ampliadas em 1910, se tornando a principal do Nordeste, e atraindo para a cidade centenas de trabalhadores ferroviários. A presença dos ferroviários em Jaboatão foi tão importante que a localidade recebeu a denominação informal de “Cidade Ferroviária”. (CAMPELO, 1919)



Além das Oficinas da Great Western, Jaboatão também passou a contar com outras indústrias no início do século XX. Entre essas podem ser mencionadas a fábrica da Societè Cotonniére Belge-Bresilienne, uma fábrica de tecidos inaugurada em 1910, dando origem ao povoado de Vila Nathan, futuro distrito e cidade de Moreno.; A fábrica de Pólvora Elephante, situada no povoado de Pontezinha; A Fábrica de Papel Pernambucana, inaugurada em 1918, situada na sede de Jaboatão; Todas essas indústrias deram ao município do Jaboatão uma grande importância econômica dentro do estado, fazendo de Jaboatão uma cidade com uma grande presença de trabalhadores e operários que passariam a ser organizar em sindicatos, realizando greves e lutando por melhores salários. (100 ANOS...,1971)



No ano de 1928, entretanto, o município do Jaboatão teria seu imenso território desmembrado e dividido. Por força da lei estadual n° 1931 de 28 de setembro de 1928, o então governador do estado Estácio Coimbra divide o município do Jaboatão, criando o município do Moreno. Desmembra o Povoado de Pontezinha, anexando-o ao município do Cabo. E por fim, anexa o Povoado de Tejipió ao município do Recife, retirando do município do Jaboatão mais de 200 km² de área territorial. (ARAÚJO, 1988)

Por conta da grande presença de trabalhadores urbanos e operários organizados em sindicatos, na cidade de Jaboatão, o município elegeu no ano de 1948 o primeiro prefeito comunista do Brasil, o Dr. Manoel Calheiros. A Cidade de Jaboatão recebeu o apelido de “Moscouzinha” pela imprensa da época, denominação que seria conhecida por todo o Brasil. Embora tenha sofrido bastante pressão das forças políticas reacionárias da cidade, o Dr. Manoel Calheiros conseguiu concluir seu mandato, apesar de todas as polêmicas criadas pela imprensa da época. (VELOSO, 1982)



As décadas de 1950 e de 1960 seriam caracterizadas por importantes transformações econômicas e territoriais no município. No ano de 1959 o município é atravessado pela rodovia federal Br 101, que corta o município na altura do Distrito de Prazeres. A presença dessa rodovia e o bom momento da economia do país na época favoreceu a chegada de várias indústrias para a região (Ford Willys, Alpargatas, Caio Norte, etc) dando origem ao Distrito Industrial de Prazeres. A população daquele distrito que, em 1960 contava com apenas 25.390 habitantes, pulou para 81.868 habitantes no ano de 1970, graças ao crescimento trazido pelas indústrias e pela expansão imobiliária nas praias. (ARAÚJO, op.cit)



Em 1965 é inaugurada na região norte do município a Rodovia 25, atual BR 232. A presença dessa rodovia atraiu várias indústrias para o setor setentrional do município, dando origem na década de 1970 ao distrito industrial do Curado. O crescimento dessas regiões do município, Prazeres-Praias e Curado, distantes da sede do município, favoreceu o desejo de emancipação dos distritos do município, notadamente na década de 1960. Todavia, os projetos de emancipação acabaram abortados pela justiça, com o advento da Ditadura Militar no país a partir de 1964.


O período da Ditadura Militar foi caracterizado em Jaboatão pela perseguição aos opositores políticos. O então governador do estado Miguel Arraes é deposto e preso no Quartel de Socorro, em Jaboatão, sendo depois exilado. O prefeito eleito Fagundes de Menezes teve seu mandato cassado por ser associado ao espectro político de esquerda. Alguns militantes políticos do município são presos e torturados e os sindicatos sofrem forte perseguição por parte dos patrões. Como as Oficinas de Jaboatão eram consideradas como a sede da força dos trabalhadores ferroviários do município, passaram a sofrer com um desmonte proposital por parte do governo, vendo seu número de trabalhadores a ser reduzido a cada ano. (RESENDE, 1996)


Na década de 1980, o município do Jaboatão passa novamente por novas transformações. A principal delas foi a construção do metrô de superfície, no ano de 1985, que modificou significativamente o Centro da Cidade de Jaboatão. O metrô substituiu os antigos trens suburbanos que faziam a ligação entre Jaboatão e a capital do estado, Recife, melhorando o fluxo entre as duas cidades. Outra mudança foi a construção de vários conjuntos residências em várias partes do município: Dom Helder, Curado I, II, III e IV, Vila Rica, Marcus Freire e Conjunto Muribeca, que aumentaram a população e o perímetro urbano da cidade.



No ano de 1989, ocorre mais uma modificação na organização política do município. O então prefeito Geraldo de almeida Melo transfere a sede político-administrativa do município para o distrito de Prazeres. A mudança ocorreu em virtude do maior crescimento urbano e populacional do distrito de Prazeres e de sua zona de influência, notadamente a zona das praias, em oposição a antiga sede de Jaboatão, com crescimento populacional mais lento e industrial estagnado. Assim, por força da lei municipal n°4 de 05 de maio de 1989, a sede do município é transferida para Prazeres e o nome do município passa a ser Jaboatão dos Guararapes. (MARCENA, 2004)



A partir do ano 2000, um novo surto de transformações passa a marcar a história do município. A construção de uma nova Br 101 sul, através do bairro de Comportas, favoreceu a expansão industrial por aquela direção. A partir de 2006, o município passa a integrar o Território Estratégico de Suape, favorecendo o crescimento industrial do município, principalmente pela Muribeca, Prazeres e Comportas. A construção da Ponte do Paiva, em 2009, trouxe uma nova valorização imobiliária para a zona das praias. Todavia, várias indústrias antigas entrarem em falência, como a Usina Bulhões, no ano de 2009, e a Fábrica de Papel (Portela), no ano de 2017. A expansão urbana e industrial acelerada, sem uma devida preocupação com o planejamento urbano, com os direitos sociais, com o meio ambiente e com a preservação do Patrimônio Histórico e Cultural tem sido uma característica do atual município do Jaboatão dos Guararapes, levando à destruição e descaracterização de vários sítios históricos, principalmente dos antigos engenhos e das vilas operárias.





sábado, 14 de novembro de 2020

História do Engenho Suassuna

 Por James Davidson


No último dia 31 de outubro tive a oportunidade de voltar à sede do antigo Engenho Suassuna, Usina Jaboatão, rever o estado da primitiva Casa-grande. Acompanhado de César Ramos, Marcelo Vieira, Isaac Luz, Marvim Gabriel e Lucas Ferreira. Na ocasião tive a oportunidade de gravar espontaneamente um vídeo sobre a história do Engenho Suassuna. Apesar dos lapsos de memória (estava com fome) segue abaixo para a apreciação do seguidor dessa página:




quinta-feira, 11 de abril de 2019

História do bairro de Engenho Velho

Por James Davidson


O bairro de Engenho Velho surgiu em terras do engenho de mesmo nome. O Engenho Velho era o primitivo Engenho Nossa Senhora da Guia que surge nas crônicas do período colonial, tendo sido levantado no final do século XVI. Durante o período da invasão holandesa ficou abandonado por muito tempo, restando apenas suas matas, pois seus proprietários fugiram para a Bahia com o advento do conflito.


 No século XVIII já estava funcionando novamente com a denominação de Engenho Velho. Em 1761 pertencia ao Padre Vasco Fernandes. No início do século XIX o engenho velho pertencia ao comendador José Francisco Pereira da Silva. Com a abertura da Estrada da Vitória, em 1836, passando pelas terras do Engenho Velho, os proprietários passam a aforar alguns terrenos às margens da estrada. Surgem assim algumas casas isoladas, embrião do atual bairro de Engenho Velho.


O Engenho Velho é arrendado em 1864 ao filho do proprietário, José Francisco Pereira da Silva Júnior. Com a morte do comendador, o Engenho Velho é vendido em 1876 por seus descendentes a José Antônio de Araújo, o Visconde do Livramento. Sua esposa, D. Maria Úrsula Moreira, Viscondessa do Livramento e seu marido tinham também uma casa na Passagem da Madalena. Mas sua presença na Cidade do Jaboatão seria marcante a ponto da casa-grande do Engenho Velho ficar conhecida como "Casa da Viscondessa".


 Com o falecimento do Visconde do Livramento, em 1886, a propriedade é herdada pela viúva, a Viscondessa do Livramento. A partir do final do século XIX e início do século XX, tem início o declínio da atividade agrícola na localidade, com a crescente expansão do núcleo urbano de Jaboatão, a chegada das ferrovias e a ascensão das usinas de açúcar em detrimento dos antigos engenhos bangues. O Engenho Velho encerra então suas atividades, sendo parte de suas terras loteadas na primeira metade do século XX. As demais foram adquiridas pela Fábrica Portela.

A casa da Viscondessa, porém, sobreviveria por mais algumas décadas. Em 1968 sediou o 1° Baile Municipal do Jaboatão, evento que contou com a participação de vários clubes sociais, como o Clube da Juventude, 13 de Maio, Inocentes do Rosarinho, Clube das Pás, entre outros. Todavia, apesar da importância histórica da casa de vivenda, a Industria Portela decidiu por abaixo o edifício, demolido em abril de 1977. Em seu lugar foi construída uma Vila de casas, a Vila da Cepasa, na Granja Santo Antônio, existente até hoje.

Além da antiga casa da Viscondessa, conta o bairro de Engenho Velho com outros edifícios de interesse histórico e social. A atual Escola Souza Brandão foi construída na antiga casa do Barão de Lucena, ex-presidente da província de Pernambuco e Juiz de Paz da Vila de Jaboatão, no século XIX. Adepto do abolicionismo, o Barão de Lucena teria papel importante na Abolição da Escravatura. Quando presidente da Câmara dos deputados, adiantou o processo de votação da Lei Áurea, ganhando com isso o título de Barão de Lucena, dado pela Princesa Isabel.Teve também destaque na vida social de Jaboatão, tendo sido criado o município do Jaboatão durante seu governo, quando governou a então província de Pernambuco, no ano de 1873.

terça-feira, 29 de maio de 2018

História: o bairro de Santo Aleixo

Por James Davidson


 Santo Aleixo é um dos bairros mais importantes e populosos de Jaboatão Centro. Localizado no setor norte do município, é atravessado pela antiga Estrada da Luz que dá acesso à BR 232. Apesar de importante e bem localizado, a localidade guarda alguns segredos sobre sua origem. Um deles é referente justamente ao seu nome, cuja origem vem de fonte incerta.


As terras do bairro pertenciam originalmente aos engenhos Duas Unas e Entre Rios. Seu desenvolvimento se iniciou a partir do ano de 1877 com a construção da "Estrada da Luz", ligando a Cidade do Jaboatão ao Povoado de Matriz da Luz, em São Lourenço da Mata. Várias procissões religiosas saiam da Cidade do Jaboatão para aquela localidade, vindo daí a denominação de Estrada da Luz que até hoje se mantém.


Foi justamente às margens da Estrada da Luz que surgiram as primeiras casas do bairro. Na última década do século XIX se registra a existência do "Arrabalde de Duas Unas", formado por casas na estrada surgida em terrenos aforados ao Engenho Duas Unas. Também vem desta época e do início do século XX a ocupação da Estrada de Entre Rios, fazendo surgir o "arrabalde" de mesmo nome. São dessa época as "Vilas", formadas inicialmente por uma única casa isolada, mas que depois se expandiam formando conjuntos de casas.


Com a expansão das Oficinas da Great Western, em 1910, o bairro ganhou incremento com a chegada de vários trabalhadores ferroviários que ali buscavam lugar onde morar. Não demorou a surgir então clubes culturais e agremiações recreativas, como o Clube Entre Rios, um dos mais tradicionais representantes do futebol jaboatonense do início do século XX. Muito tradicionais também era as festas juninas e de natal realizadas na comunidade, com decoração das ruas e apresentações de quadrilhas e pastoris.


Posteriormente, veio o povoamento das áreas adjacentes a Entre Rios: Alto Manoel de Sena, Alto São Benedito e Mundo Novo já estavam seguramente habitados na década de 1950. Outro loteamento importante surgiu ao lado da antiga Rua Santo Aleixo, continuação de Entre Rios. O Loteamento "Jardim Santo Aleixo" surgira com ruas de nomes de países: Chile, Uruguai, Argentina, etc, a partir da década de 1950. Destaque para a Venda de D. Neném, que serviria de ponto de referência por vários anos, estendendo seu nome para o local até hoje.


Também vale destacar a história religiosa da localidade. Em 2 de fevereiro de 1964 é lançada a pedra fundamental da Capela de São Pedro. Idealizada por José Martins dos Santos e por outras pessoas da localidade, só veio a ser finalmente inaugurada em 19 de julho de 1966. Recentemente recebeu uma ampliação, vindo a se tornar paróquia. Outro templo antigo da localidade é a congregação das Assembleias de Deus de Santo Aleixo, um dos primeiros a ser levantados no bairro. 


Atualmente, o bairro é um dos mais importantes e habitados de Jaboatão Centro, e vem entrando em fase de expansão na direção do vizinho bairro de Manassu e do Loteamento Duas Unas. Todavia, o bairro sofre com vários problemas urbanos e sociais. Um dos principais desses problemas são as inundações do Riacho Manassu que atravessa a parte baixa da região. Devido ao intenso assoreamento do curso d'água, os transbordamentos são constantes, causando transtornos para a população. Vários protestos e manifestações já foram feitas buscando solução para o problema, que é totalmente ignorado pelos poderes públicos.





sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Engenho Duas Unas

Por James Davidson



Localizado em Jaboatão Centro, no bairro de Santo Aleixo, às margens da Estrada da Luz, o Engenho Duas Unas é o principal marco histórico da região. Sua denominação vem do Rio Duas Unas, que atravessa a localidade. O engenho chegou a funcionar como usina e a possuir até duas casas-grandes.


Levantado no final do século XVIII, em terras separadas do Engenho Goiabeira, Duas Unas aparece nas referências ora como Sítio, Propriedade ou Engenho, variando de acordo com a época. Em meados do século XIX pertencia a Amaro Pinheiro Bezerra da Palma que vende o engenho a João Hypólito de Meira Lima, em 13 de agosto de 1857. Em 1870 pertencia a João Theotônio da Cunha.


No final do século XIX e início do século XX parte de suas terras é loteada, dando origem ao "arrabalde" de Duas Unas. Situado às margens da Estrada da Luz, foi o embrião do atual bairro de Santo Aleixo. Nos idos de 1910, chegou a existir no local uma sementeira de eucaliptos, que eram vendidos para várias regiões do estado.


A propriedade pertencia, pelos idos de 1920 e 1930, ao sr. Maximiamo Accioly Cavalcanti, casado com D. Leonita Rabelo Accioly Cavalcanti. Dos muitos membros dessa família surgiam os irmãos Flávio Campos e Maximiamo Accioly Campos, cronistas e escritores que teriam destaque na sociedade pernambucana em meados do século XX.


Da família Campos, Duas Unas passa para Francisco Fonseca Magalhães que transforma o engenho numa pequena usina. A "Engenhoca Duas Unas" era um meio-aparelho que, todavia, não sobreviveu muito tempo à concorrências das grandes usinas, passando depois a ser simples fornecedora de cana.


O cultivo de cana-de-açúcar sobreviveu até meados da década de 1990. Posteriormente as terras da propriedade passaram a ser loteadas, dando origem ao bairro de Duas Unas. Destaque para a torre de retransmissão da Embratel implantada no alto de um morro em 1975, donde se avista grande parte da paisagem do entorno. Atualmente a propriedade foi adquirida por terceiros e uma imensa terraplanagem vem sendo feita no local, cuja utilização não sabemos informar. Também não se sabe qual será o destino da secular casa-grande, construída em dois pavimentos, atualmente desocupada e sem uso. Esperamos que não tenha o mesmo destino de muitas outras casas de engenho do estado, destruídas sem a menor hesitação, apesar do seu valor histórico e cultural.

sábado, 10 de junho de 2017

Ruínas do Livramento da Muribeca

Por James Davidson


O Povoado de Muribeca é um verdadeiro celeiro da História de Jaboatão, com seus prédios históricos e casarios. Suas igrejas, engenhos e casarios ajudam a contar a história de Jaboatão e de Pernambuco. E um destes patrimônios existentes no lugar são as ruínas da Igreja dos Homens Pardos de Muribeca.


As ruínas da Igreja do Livramento dos Homens Pardos ficam localizadas na Rua do Rosário, defronte a um posto de saúde, próximo às Ruínas do Rosário dos Homens Pretos. Restam apenas uma única parede com seteiras, com alvenaria mista de pedras e tijolos, que chama a atenção na localidade.


A história do templo é porém muito antiga. Remonta ainda ao período colonial. A primeira referência vem do período holandês, quando a igreja era devotada a São Gonçalo. Posteriormente, no século XVIII, passou a ser identificada como devotada a N.S do Livramento, padroeira dos Homens Pardos.


As irmandades dos homens Pardos eram agremiações religiosas muito comuns na sociedade colonial. Eram compostas por homens livres, mestiços, que não pertenciam nem à elite branca nem ao grupo dos escravos e negros alforriados. Essas agremiações tinham o intuito de unir laços para ajuda mútua e realização de celebrações religiosas.


Quanto à Irmandade de Muribeca, não se conhecem registros sobre sua existência e funcionamento. Também são desconhecidas as causas do arruinamento e destruição do templo. Segunda uma planta de 1877,  a igreja ainda estava inteira e possuía orientação diagonal em relação à rua. No início do século XX, porém, já se encontrava em ruínas, segundo informações dos moradores mais antigos.


No ano de 1954, em virtude das comemorações do 300° da Restauração Pernambucana - saída dos holandeses de Pernambuco - foi alocado no templo uma placa comemorativa, tendo em vista a importância de Muribeca no desenrolar do conflito entre portugueses e holandeses. Atualmente, as ruínas fazem parte do Conjunto Tombado da Povoação de Muribeca dos Guararapes.


Rio Jaboatão - Poema de James Davidson

 Por James Davidson Jaboatão, Em tuas nascentes Fico eu a contemplar Água limpa Água Pura Difícil de imaginar!   Jaboatão Em...